INTERNACIONAL

INTERNACIONAL (22)

O Vaticano declarou em comunicado que os comentários do papa Francisco sobre a união entre homossexuais foram tirados do contexto e não sinalizaram uma mudança na doutrina da Igreja sobre homossexuais ou apoio ao casamento do mesmo sexo. O documento foi enviado a embaixadores da Santa Sé em todo o mundo, na última semana e veio a público nesta 2ª feira (2.nov.2020).

De acordo com o comunicado, a fala de Francisco foi editada, dando a entender que ele apoiava a união entre homossexuais. O Vaticano afirma que o que ele quis dizer era que essas pessoas têm o direito de serem aceitos pelas respectivas famílias, como filhos e irmãos.

A polêmica fala do papa Francisco consta em 1 documentário lançado em Roma, no mês de outubro. No filme, que mostra vários aspectos da personalidade do papa, aparece 1 trecho em que ele defenderia a criação de leis para permitir a união civil entre homossexuais.

As pessoas homossexuais têm direito de estar em uma família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deverá ser descartado ou ser infeliz por isso (…) O que precisamos criar é uma lei de união civil. Dessa forma eles são legalmente contemplados. Eu defendi isso”, diz Francisco em trecho do filme.

O comunicado diz que 2 respostas separadas foram editadas para parecer apenas 1, deixando o contexto e as perguntas de fora do vídeo. A Santa Sé defende que o papa expressou ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, segundo a nota. A Igreja ensina que “tendências homossexuais” não são pecado, mas “atos homossexuais” são e que gays devem ser tratados com respeito.

A frase em que Francisco diz “é uma incongruência falar em casamento homossexual” teria sido cortada. “É evidente que o papa Francisco estava se referindo a certas medidas governamentais, não à doutrina da Igreja, reafirmada por ele diversas vezes ao longo dos anos“, diz a nota.

 

 

Fonte:PB/Poder360/Foto:Divulgação

 

Uma menina de 3 anos foi resgatada nesta segunda-feira (2) bem e com vida depois de passar 65 horas nos escombros de um dos prédios que caíram após a passagem de um terremoto na última sexta-feira (30).

Elif Perincek tem alguns ferimentos, mas está bem. Ela é 106 pessoa resgatada das ruínas e foi levada ao hospital.

A pequena Elif ficou presa com sua mãe e três irmãos em um prédio que desabou inteiramente no bairro de Bayrakli, na periferia norte de Esmirna, o único gravemente afetado pelo terremoto de magnitude 6,8 na escala Richter, ocorrido na última sexta-feira.

Sua mãe, Seher Perinçek, e duas irmãs gêmeas foram salvas no sábado quando o corpo sem vida de seu irmão foi recuperado, e as equipes vinham trabalhando para chegar onde a menina estava.

O bombeiro Ahmet Yavuz, explicou à emissora de TV CNNTürk, que a menina estava em um "buraco de vida", com os olhos abertos e conscientes, quando foi encontrada.

Há possibilidade de haver mais seis pessoas neste edifício e as equipes continuarão trabalhando, sem perder a esperança, até encontrarem todos, acrescentou o bombeiro.

Não há números sobre quantas pessoas ainda podem estar sob os escombros dos outros cinco edifícios, onde as equipes de resgate trabalham, mas fontes municipais disseram ontem à Agência Efe que o número final de vítimas provavelmente ultrapassará uma centena.

 

Fonte:PB/Efe Foto:Divulgação

 

O ex-segurança negro George Floyd, que morreu em uma violenta abordagem policial em Minneapolis, será enterrado na tarde desta terça-feira (9) em Houston, no Texas, ao lado de sua mãe. A sua morte inspirou uma onda de protestos contra o racismo que se espalhou por todos os estados americanos e em cidades no mundo inteiro.

 

Cerca de 6 mil pessoa passaram na segunda-feira (8) pelo velório em Houston, cidade onde o ex-segurança passou a maior parte da vida. Além do luto, os visitantes demonstraram repúdio ao racismo e à violência policial nos Estados Unidos. Algumas pessoas passavam de cabeça baixa, outras se benziam ou erguiam o punho. Muitas usavam máscaras para evitar a disseminação do novo coronavírus durante uma cerimônia que durou mais de seis horas.

 

Floyd também teve funerais em Minneapolis e em Raeford, na Carolina do Norte, onde nasceu. Antes do enterro, haverá uma cerimônia fechada apenas para a família e convidados, entre eles autoridades.

 

Em 25 de maio, quando um policial branco pressionou um joelho no pescoço de Floyd por vários minutos, ele repetiu várias vezes que não conseguia respirar e gritou por sua mãe.

 

Onda de protestos

 

A morte de Floyd também deu origem a uma onda de protestos que atingiu quase 600 cidades nos 50 estados americanos. A mobilização popular, que já é considerada a maior desde 1968, começou com bandeiras contra o racismo e a violência policial. Com o passar dos dias, as reivindicações se ampliaram e passaram a defender uma profunda reestruturação da polícia.

Nascida como uma cidade projetada para o turismo, Cancún, no México, passou seu aniversário de 50 anos com suas idílicas praias desertas.

Há quase três meses, por conta da pandemia de covid-19, o famoso destino turístico teve seus gigantescos hotéis e boates fechados. Suas ruas, normalmente lotadas, estão praticamente vazias.

Apenas a população local permaneceu, a mesma que quase praticamente toda vive — direta ou indiretamente — do turismo, agora fortemente impactado, assim como seus trabalhadores, pela paralisação imposta pelo coronavírus.

Já considerando como perdida a alta temporada de verão (para o hemisfério norte), as autoridades locais tentam recuperar pelo menos parcialmente a atividade pelo restante do ano e lutam para atrair novamente visitantes.

Apesar do México ainda estar na fase de risco máximo de transmissão de coronavírus, de acordo com o governo, Cancún e o Caribe mexicano se tornaram, nesta segunda-feira (8), um dos primeiros grandes destinos turísticos da região a abrir parcialmente hotéis e serviços para viajantes.

Sabendo dos receios de se viajar ainda durante a pandemia, empresários garantem que cumprirão todos os protocolos para garantir a saúde dos trabalhadores e clientes nessa volta que, eles sabem, será lenta e gradual no que resta do ano.

 

O turismo é uma atividade fundamental em todo o Estado de Quintana Roo, onde, além de Cancun, fica a conhecida Riviera Maya, com destinos famosos como Tulum e Playa del Carmen.

 

"De cada dez pesos produzidos no Estado, mais de cinco vêm desse setor", disse o governador, Carlos Joaquín González, na semana passada, durante uma visita do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador.

 

Os números dão uma dimensão disso. No ano passado, 25 milhões de pessoas chegaram no aeroporto de Cancún — 65% de fora do México, com destaque para Estados Unidos e Canadá.

 

Seus 35 mil quartos de hotel costumam ter uma ocupação média de cerca de 80%. Para o mês de abril deste ano, a cidade aguardava ter ocupação total nos hotéis — antes de a pandemia virar de cabeça para baixo todo planejamento, do mais pessimista ao otimista.

 

De acordo com dados do município de Benito Juárez, ao qual pertence, desde o início da crise, dez milhões de pessoas deixaram de chegar a Cancún de avião. Em abril, seu aeroporto sofreu uma queda drástica de 97% nas operações.

Dos 100% de ocupação planejados por alguns, o número foi para 2 ou 3%, correspondente à presença de pessoas realizando atividades essenciais ou turistas que não conseguiram voltar aos seus países devido ao cancelamento de voos e ao fechamento de fronteiras.

"É, sem dúvida, o maior desafio que Cancún já enfrentou em sua história", disse à BBC News Mundo a prefeita de Benito Juárez, Mara Lezama.

É difícil de quantificar o impacto econômico disso. Até o final de abril, as autoridades municipais estimavam perdas de cerca de US$ 500 milhões (aproximadamente R$ 2,4 bilhões). Ainda sem computar os dados de maio, estima-se que já chegue a cerca de US$ 1 bilhão (R$ 4,8 bi).

Apesar da reabertura, os prejuízos continuarão pelo resto do ano. A Secretaria Estadual de Turismo prevê perdas de 32% até o final de dezembro — considerando os US$ 15 bilhões (R$ 72 bilhões) registrados em 2019 em Quintana Roo, pode-se estimar algo em torno de US$ 5 bilhões (R$ 24 bilhões) em perdas no Estado.

Um em cada dez empregos perdidos no México

E, sem surpresa, diante desse prejuízo, milhares de pessoas também ficaram sem emprego na ausência de turistas em hotéis, resorts, bares e restaurantes.

A sangria em Cancún é especialmente dramática. Com 91 mil empregos perdidos, significa que a cidade concentra um em cada dez dos 900 mil empregos que, segundo o governo central, fecharam em todo o país desde o início da pandemia.

"Somos das regiões mais afetadas do país porque o turismo é uma das indústrias mais prejudicadas. Temos uma depressão econômica", diz Lezama, destacando que os empregos informais perdidos com a crise não entram nessas cifras oficiais.

No entanto, a secretária de Turismo de Quintana Roo, Marisol Vanegas, enfatiza que mais de 400 mil empregos puderam ser mantidos em todo o Estado através de acordos com empresários, que mantiveram seus funcionários na folha de pagamento.

"87% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado está no setor de serviços, a maioria no turismo. Portanto, se questão do emprego fosse negligenciada, poderíamos ter uma grave crise social com famílias sem renda", diz Vanegas,

Em conversa com a BBC News Mundo, a secretário considera "um indicador muito positivo" o fato de que "nenhuma das mais de 6 mil empresas do Estado entrou em falência".

O restaurante Primo, em Playa del Carmen, é um destes negócios que conseguiu sobreviver à crise. Seu proprietário e chef, Pedro Abascal, admite que não foi fácil: calcula que o movimento de clientes caiu 95%, levando a uma perda de cerca de US$ 23 mil (cerca de R$ 110 mil).

Durante a pandemia, ele continuou a preparar refeições, mas apenas para entrega. Graças a isso e à saída de quatro de seus funcionários que decidiram passar a quarentena em suas cidades de origem, ele conseguiu manter o restante dos trabalhadores nas mesmas condições de antes.

"O serviço não é mais prestado no local, o que nos obriga a baixar um pouco os preços. E como não há mais gorjetas, estamos redirecionando também uma parcela de 10% do que entra para apoiar os funcionários", explicou à BBC Mundo.

E isso ele conseguiu, diz, apesar do "auxílio zero" do poder público e de ter continuado pagando todos os impostos.

"Conheço as condições políticas e sociais do meu país e ficou bem evidente que o governo não iria nos apoiar", lamenta.

Reabertura parcial aguardando turistas

Considerando esse colapso na economia local, as autoridades de Quintana Roo decidiram reabrir parcialmente hotéis e serviços turísticos a partir de segunda-feira (08/6).

Apesar de quase todo o resto do México permanecer praticamente fechado, exceto os serviços considerados essenciais, desde 1º de junho são os Estados que decidem como será o retorno ao "novo normal".

No caso de Quintana Roo, foi autorizada a abertura gradual de setores relacionados ao turismo, dependendo do grau de risco para a covid-19.

Assim, a partir de segunda-feira, hotéis, restaurantes e lojas em Cancún e Riviera Maya podem abrir com 30% de sua capacidade. As praias permanecem fechadas até a próxima fase, que será revisada semanalmente.

E embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha alertado na semana passada sobre o risco da reabertura precoce na América Latina, as autoridades locais garantem que todas as medidas de cuidado serão tomadas.

Como exemplo, citam as 4,4 mil empresas em toda a Quintana Roo que tiveram sua segurança sanitária certificada antes de reiniciar suas atividades. Além disso, Cancún e o Caribe mexicano foram o primeiro destino na América a receber o Selo de Segurança Global concedido pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo.

 

Abascal lista várias medidas tomadas em seu restaurante para se adaptar aos novos regulamentos e como isso implicou também em despesas adicionais.

"Termômetro infravermelho, capachos, placas, papel de limpeza, álcool gel em todos os lugares, produtos químicos e de limpeza multiplicados..."

Muitos questionam se este é o momento para reabertura do turismo na região, levando em conta que, na última semana, o México registrou 3,7 mil mortes por covid-19.

"Temos uma boa capacidade hospitalar (68% dos leitos disponíveis em Quintana Roo) e o risco de contágio em cada atividade será analisado toda semana. O risco não pode ser medido da mesma forma para um aeroporto e um campo de golfe", diz a prefeita Mara Lezama.

"Mas sim, é preciso trabalhar duro nos protocolos de saúde, porque, se relaxarmos, pode haver um retorno (do crescimento de casos de coronavírus) que seria terrível", reconhece.

De seu restaurante, Abascal opina que reabrir pouco a pouco a atividade turística é a coisa certa a se fazer pela necessidade de reativar a economia e por crer que, de alguma forma, teremos que aprender a conviver com o vírus.

Foco primeiro em turistas mexicanos

Apesar da reabertura, muitos turistas ainda hesitam em viajar com medo de infecções e outros ainda não podem fazê-lo até que as companhias aéreas retomem seus vôos para Cancun.

Lezama explica que os visitantes em potencial nesses primeiros meses de reabertura serão turistas nacionais, com base em estudos que afirmam que, na atual crise, "os turistas não querem viajar mais de quatro horas de avião ou quatro ou cinco de carro".

Nesse contexto, a prefeita estima que atingir 30% de ocupação no verão (que. no México, começa em junho e termina em setembro) seria um número aceitável.

"Nossos balanços de fim de ano são tipicamente 100%, mas se chegássemos a 50% desta vez seria maravilhoso."

Além das dificuldades impostas pela pandemia de coronavírus, não facilitam a grande quantidade de sargaço (tipo de alga) nas praias e nem os danos causados ​​pela tempestade tropical Cristobal em partes do Estado nos últimos dias.

"Sem dúvida, é o maior desafio da nossa história, mas Cancún tem apenas 50 anos e algo característico de ser tão jovem é ter uma sociedade flexível, com uma cultura resiliente e acostumada a situações complexas, como furacões", diz Vanegas.

De fato, apenas há cinco décadas começaram a ser erguidas construções na região de praias virgens sem população por perto, como parte de um projeto do governo para ter uma fonte de moeda estrangeira alternativa ao petróleo, que, na época, estava em crise.

A empreitada atraiu novos trabalhadores e moradores em potencial.

"Foi como a corrida do ouro nos EUA", diz Vanegas.

Por ora, a celebração de meio século da "jóia do Caribe mexicano", prevista para abril passado, terá que esperar até que ela possa brilhar novamente como antes.

 

 

Fonte:PortaldoBanzeiro/BBC/Foto:Divulgação

 

Com o rápido aumento do número de casos da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus que já infectou mais de 180 mil pessoas e causou mais de 7 mil mortes ao redor do mundo, diversos países anunciaram o fechamento de fronteiras e outras restrições a viagens e ao movimento de pessoas, em uma tentativa de conter a propagação do vírus.

Na segunda-feira (16/3), primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, anunciou o fechamento das fronteiras do país a estrangeiros.

Estão isentos da medida cidadãos e residentes permanentes do Canadá, cidadãos americanos, familiares e diplomatas. Mas mesmo esses cidadãos serão impedidos de embarcar em voos para o país caso apresentem sintomas da doença, e todos os que desembarcarem no país deverão passar por quarentena de duas semanas.

Os líderes dos 27 países-membros devem anunciar uma decisão oficial ainda nesta terça. Cidadãos e residentes do bloco e seus familiares, diplomatas e trabalhadores do setor de saúde estarão isentos da medida, e as restrições não se aplicam a viagens de um país a outro dentro da União Europeia.

A proposta segue a decisão de pelo menos oito membros do bloco de adotar controles em suas fronteiras, apesar das regras que garantem o livre movimento dentro do Espaço Schengen. Na América do Sul, vários países já fecharam suas fronteiras.

"Eu acho uma boa ideia (o fechamento de fronteiras). Quanto mais se limitar a mistura de pessoas de uma área geográfica a outra, mais sucesso teremos em retardar a propagação", diz à BBC News Brasil a especialista em doenças infecciosas Jessica Justman, professora da Columbia University, em Nova York.

Contenção e mitigação

Justman ressalta que, em uma pandemia como essa, é importante adotar medidas tanto de contenção quanto de mitigação. Ela diz que, enquanto a contenção é focada nos indivíduos, abrangendo testes, quarentenas, rastreamento de contato e outras medidas do tipo, a mitigação se concentra no nível comunitário.

"O distanciamento social é parte crucial da mitigação. (Medidas como) fechamento de escolas, recomendar que as pessoas evitem locais com muita gente. E acho que restringir a passagem de pessoas pela fronteira (também) é parte (importante) da mitigação", salienta.

A China, país onde o coronavírus foi inicialmente identificado e, durante muito tempo, epicentro da crise, adotou restrições de viagens no início da epidemia. Segundo especialistas, essas medidas ajudaram a retardar a propagação do novo coronavírus não apenas no país como também no resto do mundo. Esse tempo extra é valioso para que os países e seus sistemas de saúde se preparem para enfrentar a crise.

Mas como a covid-19 é uma doença nova, sobre a qual ainda há muitas dúvidas sem respostas, é difícil avaliar o impacto desse tipo de medida. Um estudo calculou que proibições de viagem adotadas inicialmente pela China atrasaram o avanço do vírus em 2,9 dias.

O país tem mais de 80 mil casos confirmados, mas nas últimas semanas vem registrando baixo número de novos casos, e deixou de ser o epicentro da crise — que agora é a Europa.

Um casal usa máscaras em uma rua de Pequim no dia 6 de março

Ainda em janeiro, o presidente americano, Donald Trump, proibiu estrangeiros que haviam visitado recentemente a China de entrar nos Estados Unidos. Na época, a medida recebeu elogios de especialistas em saúde pública por reduzir a velocidade da propagação do novo coronavírus, dando tempo para que os Estados Unidos se preparassem.

No entanto, o governo foi criticado por desperdiçar esse tempo com problemas de acesso aos testes.

Mas quando Trump anunciou novas restrições na semana passada, desta vez suspendendo viagens da Europa para os Estados Unidos por 30 dias (medida que não se aplica a cidadãos americanos, seus familiares e residentes permanentes), alguns especialistas disseram que a ação teria efeito limitado porque, ao contrário do que ocorria na época da proibição inicial em relação a viajantes com passagem pela China, agora o vírus já está circulando livremente dentro dos EUA.

Os Estados Unidos já registram mais de 4 mil casos e mais de 80 mortes. O número total de infectados pode ser bem maior, porque a escassez inicial de testes fez com que muitas pessoas não pudessem ser diagnosticadas. O Canadá tem até agora 406 casos confirmados, com quatro mortes.

"Sou a favor de reduzir o avanço do vírus pelas fronteiras, mesmo que haja muitos casos no momento. Nós queremos atrasar o número de novos casos que ocorrem a cada dia", afirma Justman.

Nas últimas 24 horas, o Canadá registrou 65 novos casos. Nos Estados Unidos, foram mais de 500 novos casos em um dia.

Situação do Brasil

Justman diz que restrições de viagens seriam úteis também no Brasil, que até agora tem 301 casos confirmados.

"Acho que para o Brasil faria sentido restringir a entrada de pessoas de partes do mundo onde há muitos casos. Muitos países estão tomando essa medida", ressalta.

No domingo, a Associação Médica Brasileira encaminhou ofício ao presidente Jair Bolsonaro pedindo o fechamento das fronteiras do Brasil com a Venezuela e a Guiana.

No fim da tarde desta terça-feira, o presidente anunciou que ordenará o fechamento parcial da passagem entre Brasil e Venezuela.

Segundo a associação, o pedido foi motivado por relatos sobre fluxo de migrantes para Roraima em busca de atendimento médico, "aumentando o risco de circulação do vírus" e sobrecarregando o sistema de saúde. A AMB diz que há falta de equipamentos de proteção individual, inclusive máscaras.

Um homem usa uma máscara no metrô de Nova York

América Latina e Europa

Nos últimos dias, diversos países da América do Sul adotaram restrições para tentar conter o coronavírus. A Argentina, que tem 56 casos, fechou as fronteiras por duas semanas para estrangeiros, cancelou voos dos Estados Unidos, Europa, Coreia do Sul, Japão, China e Irã por um mês e está repatriando turistas que descumprirem quarentena.

Chile, Colômbia, Paraguai e Peru também fecharam as fronteiras e impuseram quarentena de duas semanas para quem desembarca no país vindo de países de risco. Na Europa, vários países fecharam suas fronteiras. O continente agora é o epicentro da crise. Na Itália, são mais de 27 mil casos e mais de 2 mil mortes.

A Espanha, que tem mais de 9 mil casos, determinou que somente cidadãos, residentes e casos especiais poderão passar pela fronteira terrestre. A Alemanha, com mais de 7 mil casos, fechou suas fronteiras com Áustria, França e Suíça.

Muitos países ao redor do mundo também estão adotando medidas para que a população fique em casa. Em alguns, só são permitidas saídas para comprar comida ou ir ao médico. Eventos sociais, culturais, esportivos e religiosos foram cancelados. Bares, restaurantes, cinemas e museus estão fechados. Funcionários estão trabalhando de casa e escolas e universidades cancelaram aulas.

Nos Estados Unidos, as duas maiores cidades do país, Nova York e Los Angeles, determinaram o fechamento de bares e restaurantes para tentar conter o avanço do vírus. Antes do anúncio do fechamento, já havia a recomendação de que as pessoas evitassem locais com muita gente, mas durante o fim de semana vários bares nessas cidades estavam lotados.

 

 

PortaldoBanzeiro/BBCBrasil/Foto:Gettyimagens

 

Um dos principais assuntos do jantar entre os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, na noite deste sábado (7), na casa de veraneio do republicano em Mar-a-Lago, na Flórida, deve ser a possibilidade de adotar uma postura mais dura em relação ao regime chavista de Nicolás Maduro.

Segundo funcionários de alto escalão do governo americano diretamente envolvidos na organização do encontro entre os dois líderes, os EUA consideram o Brasil e a Colômbia os dois aliados mais próximos na região e peças chave para solucionar o que consideram ser um risco para a segurança nacional dos países da América.

Os EUA qualificam a Venezuela como um Estado financiador do terrorismo e do tráfico de drogas na região, por isso tem imposto uma série de sanções econômicas sobre o regime venezuelano.

De acordo com agentes de segurança nacional da Casa Branca, atualmente, os americanos empregam 60% da força de pressão que poderiam exercer sobre a Venezuela, mas não descartam a possibilidade de escalar as ações em um futuro breve. A intenção seria forçar novas eleições presidenciais no país ainda esse ano, acompanhadas por observadores externos.

Desde o ano passado, Brasil, Colômbia e EUA defendem a saída de Maduro do poder e reconhecem o líder oposicionista Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, depois que ele se proclamou chefe de Estado do país após acusar Maduro de fraude nas eleições. O mandatário nega as acusações.

Nicolás Maduro

Segundo as fontes americanas, Trump deverá exortar Bolsonaro a se juntar a esses esforços. tomar medidas ainda mais duras contra o governo Maduro. O republicano tem tentado aumentar o foco de atenção e atuação dos EUA no continente americano e se retirar de disputas e ações armadas no Oriente Médio e em outras regiões do mundo, que ele considera de menor importância para o país.

A Venezuela vive uma grave crise econômica e política nos últimos anos. A hiperinflação, o alto índice de desemprego, o desabastecimento de produtos de necessidades básicas e o recrudescimento de medidas autoritárias do governo Maduro já levaram mais de 4 milhões de venezuelanos a sair do país — a maior parte deles, 1,5 milhão, em direção à Colômbia.

Retirada da Venezuela

O jantar entre Trump e Bolsonaro ocorre apenas três dias após o governo brasileiro determinar em Diário Oficial a retirada de todo o corpo diplomático nacional do país vizinho e ordenar que os representantes venezuelanos do governo Maduro deixem o território brasileiro, o que configura rompimento das relações de diplomacia entre Brasil e Venezuela.

"Não existem precedentes dessa medida do Itamaraty. Só em caso de guerra civil você retira o pessoal, como foi o caso na Líbia. Tampouco existem explicações para essa retirada total, num país que deve abrigar centenas, senão, milhares de brasileiros", afirmou à BBC News Brasil o embaixador Paulo Roberto de Almeida.

Cinco dias antes do jantar com Bolsonaro, Trump recebeu o presidente da Colômbia, Iván Duque, em reunião bilateral na Casa Branca.

Após o encontro, Trump afirmou que "uma das coisas de que estamos falando é a Venezuela — um grande assunto para nós. E eles estão tratando o povo da Venezuela incrivelmente mal. Eles não têm água. Eles não têm comida. Eles não têm nada".

Duque foi ainda mais direto na mensagem. " É muito importante que imponhamos sanções mais fortes contra a ditadura na Venezuela ", disse o presidente colombiano, que completou: "Neste ano, temos que trabalhar juntos para que haja uma transição política e democrática que seja eficaz na Venezuela."

Bolsonaro viaja acompanhado do ministro da defesa General Fernando de Azevedo Silva e visitará o Comando do Sul dos EUA, responsável pela estratégia militar para América do Sul.

Guaidó 

Mas não se esperam medidas concretas no jantar, onde do lado brasileiro devem estar, além de Bolsonaro, o deputado federal e filho do presidente Eduardo, o chanceler Ernesto Araújo e o embaixador brasileiro nos EUA Nestor Forster.

Ao lado de Trump, estão previstos a assessora especial da Casa Branca e filha do presidente, Ivanka Trump, o genro e assessor sênior, Jared Kushner, o Conselheiro Nacional de Segurança, Robin O'Brien, o presidente da Corporação Internacional para o Desenvolvimento das Finanças americana, Adam Boehler e o diretor para Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Mauricio Claver-Carone.

Acordo de livre comércio na mesa

Na mesa do encontro também deverá constar discussões sobre como aprofundar as relações econômicas bilaterais entre os dois países. Tanto Bolsonaro quanto Trump já expressaram o interesse de firmar um acordo de livre comércio e a burocracia dos dois países têm trabalhado para dissolver os chamados "irritantes comerciais", setores da econômico em que os países têm choque de interesses.

Um desses irritantes foi dissolvido no mês passado, quando os americanos liberaram seu mercado interno para a entrada de carne bovina brasileira, barrada há alguns anos sob justificativas sanitárias.

Amplamente apoiado pelos fazendeiros e concorrendo à reeleição em novembro, o assunto da carne era especialmente sensível para Trump, já que feriria os interesses comerciais dessa base eleitoral. Por outro lado, era uma pauta muito cara aos ruralistas, que apoiaram maciçamente Bolsonaro à presidência. O Brasil é o maior produtor mundial de carne bovina.

Apesar da evolução, nem o Itamaraty nem o departamento de Estado americano arriscam um prazo para a concretização de acordos. Ambos os órgãos foram categóricos em rechaçar a possibilidade de anúncios sobre o assunto após o jantar.

5G: EUA x China

É esperado ainda que os americanos voltem a mencionar a questão do fornecimento do 5G pela empresa chinesa Huawei. Um funcionário de alto escalão da Casa Branca afirmou nesse sábado que esse é um assunto que deveria preocupar o governo Bolsonaro, já que incluiria risco para "a privacidade dos brasileiros e a segurança nacional".

O leilão do 5G está previsto para o próximo ano e o Brasil não descarta que a fornecedora seja a tecnológica chinesa.

A Huawei está no centro da guerra comercial entre China e Estados Unidos e foi banida pelo governo americano de fazer negócios com companhias do país.

Celular 5G

Os Estados Unidos alegam que a tecnologia da Huawei para redes de dados e a proximidade com o governo chinês representam uma ameaça à segurança nacional nas nações que a adotam. A Huawei e a China negam as acusações.

As redes 5G prometem velocidades de download até 20 vezes maiores do que no 4G, permitem que mais gente fique conectada em uma mesma região simultaneamente e oferece conectividade quase instantânea entre aparelhos.

 

PortaldoBanzeiro/BBCBrasil/Fotos:GettyImages

 

Uma estudante britânica que foi mandada de volta para casa pela sua escola diversas vezes porque seu cabelo era considerado grande demais será indenizada em 8,5 mil libras (R$ 47,8 mil).

Ruby Williams, hoje com 18 anos, moveu uma ação contra a Urswick School, no leste de Londres. O processo foi encerrado após as partes terem alcançado um acordo extrajudicial.

A escola nega que tenha discriminado Ruby e afirma que o cabelo dela violava as regras da instituição, que estabelecem que "cabelos afro devem ter tamanho e comprimento razoáveis".

Após reclamações da família de Ruby, a Urswick School removeu a regra de seu site.

A jovem disse à BBC que deseja que escolas do Reino Unido tenham "diretrizes melhores, para que as pessoas não sejam discriminadas quando estiverem na escola".

"Também desejo que essa história dê confiança para que pessoas em situações semelhantes não fiquem caladas", disse Ruby.

A escola nega ter discriminado a estudante

Kate Williams, mãe de Ruby, tomou conhecimento da política da escola por meio do site depois que Ruby foi mandada para casa pela primeira vez.

Isso chocou Ruby, que tinha 14 anos quando foi impedida de ficar na escola. "Estou realmente sendo mandada para casa por causa do meu cabelo?", ela se recorda de ter perguntado.

A jovem diz que o diretor da escola, Richard Brown, afirmou que seu cabelo era "muito grande" e estava distraindo alunos e bloqueando a visão da lousa.

A Comissão de Igualdade e Direitos Humanos, um órgão público independente, alegava que havia ocorrido discriminação racial contra Ruby.

O acordo extrajudicial que deu fim à ação foi ofertado à família de Ruby pelo Conselho Diocesano de Escolas de Londres, organização religiosa que administra a escola, sem que houvesse qualquer admissão de responsabilidade.

A direção da Urswick School afirma que a escola "reconhece e celebra a diversidade". "O corpo diretivo fica extremamente apreensivo se alguma criança ou família sente que a discriminamos", disse a instituição em um comunicado.

"Não aceitamos que a escola tenha discriminado, mesmo que sem intenção, qualquer indivíduo ou grupo."

Depressão e ansiedade

A escola de Ruby usou sua foto do sétimo ano, quando seus cabelos eram mais curtos, em seu anuário

 

Ruby teve sintomas de depressão e ansiedade. Ela temia ser repreendida por professores na frente de seus colegas de classe por causa de sua aparência. "Eu sentia que, sempre que entrava na escola com cabelo daquele jeito, todos olhavam para mim", disse ela.

 

A escola recebeu cartas do clínico geral de Ruby e de um psicólogo avisando que ela estava sofrendo com a situação. A ação movida pela família de Ruby alega que ela não recebeu nenhum tipo de apoio da equipe da instituição.

 

Como Ruby hoje não estuda mais na escola, a Urswick diz ser "impossível" fazer novos comentários sobre um ex-aluno.

 

 Ruby tentou fazer penteados para cumprir as regras da escola

Ruby tentou vários penteados diferentes para cumprir as regras da escola. Fez tranças, que levavam horas para serem concluídas e custavam entre 20 e 100 libras (R$ 112 a R$ 563) em um cabeleireiro. Também experimentou diferentes tipos de rabos de cavalo e aplicou gel.

Mas sua família concluiu que qualquer alternativa custava muito dinheiro, levava muito tempo ou até podia danificar o cabelo de Ruby.

Ruby teve sintomas de depressão e ansiedade por causa da situação

Depois que uma professora tentou colocar faixas no cabelo de Ruby, ela chegou ao limite.

"Fiquei frustrada, porque meu cabelo continuava saltando para fora do coque e, no final, eu apenas disse: 'Se estiver muito grande, você pode simplesmente me enviar para casa? Porque isso não é certo'."

"Por que eu devo cortar ou mudar meu cabelo se outras pessoas podem ter o cabelo até o quadril, mas porque meu cabelo cresce para cima, eu preciso cortá-lo?"

'Pensava que meu cabelo não era normal'

 Ruby diz que levava meia hora todas as manhãs para deixar seu cabelo com um estilo que a escola considerava aceitável

Ruby nem sempre gostou do seu cabelo. Ela começou a mudá-lo em 2013, quando estava no sétimo ano, o que demandava cerca de três horas, duas vezes por semana.

Isso fez com que seu cabelo ficasse danificado, mas Ruby sentia que precisava alisá-lo. "Eu pensava que havia algo errado com isso, porque ninguém mais usavaa o cabelo assim", diz ela.

"Todo mundo que tinha cabelos como os meus usava uma rede ou uma peruca, ninguém deixava solto, então, meu cabelo não podia ser normal nem tão bom quanto o de outras pessoas."

Desde pequena, a família de Ruby mantinha o cabelo da jovem no estilo natural

Depois de ver mais negros mantendo seus cabelos em estilo natural, Ruby parou de alisá-los. Mas, em setembro de 2016, começaram os problemas com a escola. O caso se arrastou na Justiça por anos, e Ruby e sua família decidiram aceitar o acordo.

Eles agora querem garantir que crianças com cabelos afro nas escolas do Reino Unido não passem por algo parecido e pedem que as escolas celebrem o Dia Mundial do Afro, que acontece no dia 15 de setembro, para aumentar a conscientização.

Ruby e seus pais receberam apoio da Comissão de Igualdade e Direitos Humanos do Reino Unido

Ruby, que agora estuda em outra escola, diz que hoje se sente confiante em relação ao seu cabelo. "Tenho orgulho dele e do caminho que percorri. Tenho orgulho do meu cabelo ser 'muito grande'."

 

 

 

 

 

O discurso de Estado da União deste ano, proferido pelo presidente americano Donald Trump na noite de terça-feira (04), foi marcado por tensão desde o início.

A primeira saia justa aconteceu quando Trump entregou o texto do discurso à presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, e pareceu ignorar quando ela estendeu a mão para cumprimentá-lo.

Foi a primeira vez que os dois ficaram frente a frente depois que a líder democrata abriu o processo de impeachment contra o presidente.

Ao fim do pronunciamento, Pelosi não escondeu seu incômodo e surpreendeu os espectadores ao rasgar o texto do discurso, como mostram as imagens.

O pronunciamento, feito em uma sessão conjunta do Congresso, é o momento em que, tradicionalmente, os presidentes americanos falam sobre as conquistas do ano que passou e sobre suas propostas para o ano que se inicia.

 

 

PortaldoBanzeiro/BBCInternacional/Foto:GettyImagens

O Japão promove duas comemorações de Dia dos Namorados. A primeira segue relativamente a tradição ocidental, e a segunda é uma invenção do próprio país.

No dia 14 fevereiro, as mulheres do Japão presenteiam os homens com o chamado giri choco — "giri" significa "obrigação" e "choco", "chocolate". Ou seja, elas dão chocolate a seus amados.

Um mês depois, no dia 14 de março, celebra-se o Dia Branco, quando eles as presenteiam de volta com itens brancos, como marshmallows, bolos ou doces, lenços ou papel de carta e, às vezes, até mesmo joias cravejadas de pérolas.

A festa reflete um valor cultural profundamente enraizado na sociedade japonesa, o de demonstrar gratidão. Mas a celebração dá sinais de declínio de popularidade em meio a mudanças mais amplas em curso no país asiático.

Diversão forçada

A Ishimura Manseido, uma empresa de doces na província de Fukuoka, no sul do Japão, reivindica ter inventado o Dia Branco há 40 anos. Ela capitalizou a popularidade do Dia dos Namorados encorajando os homens a agradecer às mulheres com doces de marshmallow recheados com chocolate.

Desde então, a festa se popularizou e chegou a cruzar as fronteiras para outros países do Leste Asiático, como China e Coreia do Sul. E o que começou como algo entre amantes se estendeu a um amplo grupo de destinatários: colegas de trabalho, chefes, familiares, amigos. Rapidamente a brincadeira ficou cara.

"No final dos anos 1980, ganhei um lenço Hermès do amigo do meu pai, e essa pessoa estava dando lenço para todo mundo", diz Sawako Hidaka, diretor-executivo da empresa sem fins lucrativos Asia Society, sediada em Tóquio, no Japão.

"Agora isso não acontece mais. Meu palpite é que se gaste algo entre 500 e 2 mil ienes (R$ 18 a R$ 70) na média por presente. Mas lembre-se que você não presenteia apenas uma pessoa, então isso se soma."

 Funcionária ajuda um homem com uma compra Dia Branco.

Presentes dados, presentes recebidos

Feriados criados por marcas existem em todo o mundo. Nos EUA, há os chamados "feriados da Hallmark", que inclui o "Dia Mais Doce", um Dia dos Namorados menos popular em outubro.

E embora o Dia Branco exista com o fim de estimular as vendas no Japão, ele está surpreendentemente conectado aos valores da sociedade japonesa. À medida que o Dia Branco se aproxima, os pontos de venda anunciam seus produtos como okaeshi, que significa presente dado como agradecimento.

Demonstrar apreço e amor é um símbolo de afeto e respeito em todo o mundo, mas a prática assume particular importância no Japão, um país que valoriza muito a harmonia do grupo e o bom relacionamento social e profissional.

"A tradição japonesa de presentear indica que, se você receber um presente, você é obrigado a retribuir", diz Setsu Shigematsu, professor associado de mídia e estudos culturais da Universidade da Califórnia em Riverside.

marshmallows

"Obviamente, os mal-entendidos que podem ocorrer por tais trocas são evidentes. As pessoas podem estar cansadas dos problemas que podem advir dessa troca de presentes, uma vez que ela borra a fronteira entre romance e obrigação", continua.

Declínio na popularidade?

Segundo a Associação de Aniversário do Japão, uma organização que registra e estuda os eventos e feriados do país, os gastos do Dia Branco no ano passado caíram cerca de 10% em comparação com 2017.

Há uma razão simples para o declínio, diz a associação: os gastos do Dia dos Namorados no Japão também caíram — neste caso, 3%. Se há menos mulheres distribuindo chocolates, haverá menos homens ainda para agradecer um mês depois.

Apesar do abalo, o Dia dos Namorados gerou mais de um US$ 1 bilhão (R$ 3,9 bilhões) no Japão — uma cifra nada irrelevante.

"O evento de mais impacto nos negócios é o Natal, seguido pelo Dia dos Namorados; o Dia Branco é o terceiro mais importante", diz Mayumi Nagase, gerente de produtos da Puratos, uma empresa de chocolate e confeitaria sediada em Tóquio. "Nós vendemos muito chocolate e outros ingredientes para as confeitarias prepararem bolos frescos".

Já o chef Mou Soejima, que vive em Kamakura, no Japão, pondera não perceber aumento dos negócios no Dia Branco. Isso porque se trata de um feriado menos voltado para sair e jantar e mais sobre dar e receber o okaeshi.

Ele próprio questiona a relevância da data: "O Dia Branco é incompreensível. Onde você já viu marshmallows mais caros que chocolate?".

Papéis de gênero e expectativas

Na mesma linha, há pessoas no Japão fartas da estranha dinâmica de poder posta em ação nessas datas festivas, especialmente no contexto do escritório. E, mais do que isso, incomodadas com a divisão de gênero promovida pelas festas.

"Claramente esses feriados atribuem papéis específicos de gênero e orientação sexual", diz Tomomi Yamaguchi, professora de sociologia e antropologia da Universidade de Montana. "A heterossexualidade é obviamente a premissa da promoção desses feriados".

Ela ressalta que entre os presenteados hoje estão parceiros do mesmo sexo, amigos e até a si próprio. Mas a tônica da celebração é, em sua origem, mulheres presenteando homens. Ela surgiu por volta de 1970, quando lojas de departamento começaram a encorajar as garotas a comprar chocolates para os meninos como forma de demonstrar seu interesse.

"Naquela época, não era comum que as mulheres declarassem seu amor aos homens, e o Dia dos Namorados era o dia em que elas podiam fazê-lo", conta Mayumi Nagase.

Vitrine para o Dia Branco em Tóquio em 2015

 

O feriado foi criado, portanto, para dar às mulheres a chance de demonstrar seus sentimentos. "Em uma era machista e dominada por homens, fazia sentido", completa.

 

Crise econômica

 

Um dos fatores contribuindo para o desgaste das festas não é apenas social. Shigematsu acredita que a queda da renda da população também tem acelerado esse declínio. Estimativas apontam que a renda média do trabalhador japonês é a menor em 30 anos.

 

"A tradição de as mulheres presentearem no Dia dos Namorados, seguida por homens retribuindo-as no Dia Branco, simplesmente não se mantém no mesmo patamar de vendas por conta das mudanças econômicas e sociais em curso", defende.

 

Yamaguchi, enquanto isso, acha que o fascínio pelo Dia dos Namorados está diminuindo e sendo substituído por outras celebrações importadas, como o Halloween.

 

E Nagase, da Puratos, acrescenta que tanto o Dia dos Namorados quanto o Dia Branco estão ficando mais casuais e menos definidos pelo romance: "Os amantes do chocolate, não apenas mulheres, mas homens, gastam muito dinheiro para comprar chocolates premium para si próprios".

 

Será que essas festas sobreviverão no Japão atual? Talvez elas possam ser reformuladas para as novas gerações. Em vez de ficarem presas a um ciclo caro e obrigatório de presentes, as festas se tornem um momento para cuidar de si próprio. "As pessoas já começaram a repensá-las", diz Hidaka.

 

 

PortaldoBanzeiro/BBCInternacional/Fotos:GettyImagens

 

 

 

 

 

 

 

Em seu apartamento em um bairro de classe média no Rio de Janeiro, a carioca Luzia*, de 31 anos, mostra à BBC News Brasil as duas agulhas de tricô que, em um momento de total desespero, comprou para tentar fazer um aborto caseiro.

Com formação universitária, casada e mãe de duas filhas, ela estava totalmente ciente do risco que iria correr.

"E você acha que não passou pela minha cabeça a possibilidade de eu morrer?", diz. "Se eu morrer? (Pensei que seria) muito mais fácil. Minha filha mais velha vai morar com meu ex, minha mais nova fica com meu marido e está tudo certo."

"Passam pela sua cabeça umas coisas que você não imagina que iria pensar: 'Se eu morrer eu resolvo a vida, não tenho neném, não tenho pecado'."

Católica, Luzia diz que tomar a decisão de interromper a gravidez não foi fácil. "Não é confortável, não é uma decisão fácil. De repente, morrer seria uma solução para eu não ter que fazer essa escolha."

Luzia conta que acabou fazendo um aborto legal e seguro, com assistência médica, na Colômbia — onde o aborto é legal em mais situações que no Brasil. Para viajar, ela teve ajuda do grupo Milhas pela Vida das Mulheres, que ela conheceu pesquisando na internet.

Criado pela diretora e roteirista brasileira Juliana Reis no ano passado, o grupo levou até agora oito mulheres para a Colômbia, pagando totalmente a viagem para duas delas, e ajudando as outras com informações e procedimentos.

Juliana teve interesse pelo tema durante toda a vida, por ter também passado pelo procedimento. Sempre quis ajudar mulheres a obter abortos seguros, mas no Brasil isso seria crime. O procedimento só é permitido aqui em casos de estupro, anencefalia ou risco de vida para a mãe.

Então, aos 56 anos e mãe de uma filha adulta, começou a oferecer apoio para que outras mulheres conseguissem ir para o exterior para interromper a gravidez. 

agulhas de tricô vermelhas compradas por Luzia para fazer um aborto

 

Mulheres que viajam para fazer abortos em países onde ele é legalizado não podem ser processadas criminalmente no Brasil, explica a criminalista Maira Zapater, professora de direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"O Código Penal condiciona a punição de um brasileiro por um crime cometido no exterior ao fato de o crime ser punível também no país em que o ato foi praticado", diz.

"Se o aborto é realizado em outro país em que essa conduta é legalizada, não há configuração de crime no Brasil por conta da territorialidade penal", concorda a advogada criminalista Julia Granado.

Granado diz ainda que as organizadoras do Milhas pela Vida das Mulheres também não podem ser acusadas criminalmente por ajudar mulheres a viajar para fazer abortos. "Não é considerado crime o auxílio a viagens", afirma.

"Se a gente estivesse falando de uma interrupção da gravidez dentro do território nacional, as pessoas que ajudam poderiam ser implicadas no crime", explica Zapater. "Mas como a pessoa que praticou o ato em um local onde isso não é punível, quem ajuda também não pode ser punido."

O aborto na América Latina

A Colômbia permite o aborto desde 2006 por decisão da Suprema Corte do país, após discussões na esfera pública com pressão de grupos contra e a favor da descriminalização. Grupos de direitos das mulheres defendiam a descriminalização, enquanto grupos religiosos também fizeram pressão contra — o cardeal Pedro Rubiano, ligado a setores mais conservadores da Igreja Católica, equiparou o aborto a homicídio.

Hoje, o aborto é permitido no país em casos de estupro, incesto, deformidade severa do feto e de risco à saúde da mulher — incluindo a saúde mental. Como se considera que obrigar uma mulher a levar uma gestação até o fim contra sua vontade é impor sofrimento psicológico e risco para sua saúde mental, cidadãs colombianas podem fazer o procedimento pelo sistema de saúde público.

Já clínicas particulares oferecem o serviço para colombianas e estrangeiras.

A criadora do Milhas pela Vida considerou que a Colômbia era o destino mais fácil — por ser possível viajar apenas com RG e comprovante de vacina de febre amarela, facilita o processo para mulheres sem passaporte, além do espanhol ser mais compreensível para quem não tem conhecimento nenhum em outras línguas.

A diretora chegou a pensar em ajudar as mulheres a irem a outros países, mas percebeu que seria mais difícil. No Uruguai, por exemplo, abortos só podem ser feitos pelo sistema público de saúde, que atende somente cidadãs do país para o procedimento. Países da Europa saem mais caro, e em muitos casos é preciso ter visto.

Cerca 97% das mulheres da América Latina e do Caribe vivem em locais onde a legislação proíbe ou restringe o aborto, segundo o Guttmacher Institute, organização americana que luta por direitos sexuais e reprodutivos.

Momento de desespero

Quando foi procurada por Luzia, Juliana ainda estava organizando o grupo e não tinha ajudado nenhuma mulher a ir para o país vizinho. Luzia foi a primeira.

Mãe de duas filhas pequenas — de 1 e 4 anos — Luzia curtiu muito as duas gestações, mas não queria ter mais filhos.

"Com a mais nova, eu parei de trabalhar, minha vida mudou muito, eu vim para cá, onde pagamos aluguel", conta ela. "Meu marido não ganha mal, mas não temos dinheiro sobrando."

Ela tinha parado de tomar pílula para usar o DIU (dispositivo intrauterino), que idealmente é colocado durante o período menstrual, e estava esperando a data certa para implantá-lo quando engravidou pela terceira vez.

"Um pouco antes a gente teve uma relação (sexual) e eu tomei a pílula do dia seguinte", conta.

Mas o dia em que a menstruação deveria descer passou. Depois passaram mais um, mais dois... Com a filha de um ano de meio no colo, Luzia fala do desespero que sentiu quando o teste de gravidez comprado na farmácia deu positivo.

Dispositivo Intra Uterino na mão de uma pessoaSofia ganhou a implantação de um DIU do Profamilia

"Fiquei sem chão, fiquei muito desesperada. O que eu faço? Meu marido falou: 'Um terceiro não dá, não dá'", conta.

"Não quero ter, não quero, não reconheço... Não tive alegria, não sonhei com neném sorrindo. Eu não queria. Era uma coisa que nunca deveria ter acontecido."

"É justamente pensando no bem das minhas filhas que eu não poderia ter mais um. É um peso gigantesco, e você quer dar sempre o melhor", afirma.

"Eu pensava em parar minha vida de novo, em todos os enjoos, e barriga, e família, e o constrangimento... Nas pessoas falando que eu era louca em ter um terceiro filho, e ninguém acreditando que eu tomei a pílula, e nos boletos, nos boletos... Essa aqui entrando para a creche, pagando matrícula, mensalidade."

Com a decisão de interromper a gravidez tomada, Luzia começou a pensar em como realizar o procedimento. "A gente sabe que um monte de gente faz, mas ninguém fala", diz.

Sem saber de nenhuma clínica clandestina "segura" onde pudesse fazer o aborto — que pode chegar a custar até R$ 10 mil no Rio de Janeiro — Luzia comprou uma substância abortiva no centro da cidade por R$ 750. Em situação financeira muito difícil na época, precisou fazer um empréstimo para conseguir esse valor.

Quando a pílula não fez efeito, o desespero a levou a comprar as agulhas de crochê. "Eu pensei: na época da minha avó todo mundo enfiava as coisas lá dentro. Vou fazer isso também. Saí abrindo gaveta, vendo brinquedo... e não tinha nada que servisse. Aí comprei, comprei (as agulhas)."

Como conseguiu ir para a Colômbia, ela desistiu do aborto caseiro.

O foco do grupo Milhas pela Vida das Mulheres é atender mulheres em condição de vulnerabilidade social — pessoas excluídas socialmente, principalmente (mas não somente) por fatores socioeconômicos.

A entidade então não pagou pela viagem de Luzia, que é de classe média, mas forneceu informações e apoio para ela saber como fazer o procedimento no exterior.

"Apesar de estar quebrada (financeiramente), minha maior dificuldade era mesmo orientação", conta Luzia, que não contou sobre o procedimento para ninguém além do marido. "Se não fosse ela na minha vida, eu não sei como eu ia fazer. De repente, eu iria na cara e na coragem e teria dado errado."

Tema controverso

No Brasil, o Código Penal, que estabelece que aborto é crime exceto nas hipóteses de risco à vida e estupro, é de 1940. A possibilidade de aborto em caso de anencefalia existe desde decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012.

Já foram feitas diversas tentativas de modificar a legislação nos dois sentidos. Um projeto de lei de 1991 para descriminalizar o aborto em mais casos, por exemplo, foi arquivado em 2008. Outro projeto, o estatuto do nascituro, em 2010, visava proibir o aborto em todos os casos e tornar as penas mais rigorosas. Ele foi arquivado, mas há outro projeto semelhante em tramitação.

Embora existam muitos grupos que peçam a descriminalização, também existe forte pressão contrária, vinda principalmente de grupos religiosos, que têm forte representação na Câmara dos Deputados — juntas, as bancadas católica e evangélica têm 311 deputados, formando maioria. Isso torna improvável que uma descriminalização, na atual configuração da Casa, venha pelo Poder Legislativo.

Também existe uma ação que pede a descriminalização do aborto na fila para ser julgada pelo STF, mas não há previsão para seu julgamento.

Segundo a última pesquisa feita para medir a posição da população, do Datafolha**, em dezembro de 2018, 41% dos brasileiros são contrários a qualquer tipo de aborto, ou seja, mesmo em casos de estupro, anencefalia ou risco à vida da mãe, como permite hoje a legislação.

Em audiências públicas feitas pelo STF no ano passado, as pessoas selecionadas para apresentar argumentos contra a descriminalização tiveram como argumentação central "que a vida começa na concepção" e que o aborto seria uma violação do artigo da Constituição que garante "o direito à vida", como mostra reportagem feita pela BBC News Brasil.

Já os defensores da descriminalização levam argumentos como os efeitos da legislação na saúde das mulheres, como as mortes provenientes de abortos inseguros, o fato do Estado ser laico e a questão da desigualdade social, com as mulheres mais pobres sendo as mais afetadas pela legislação.

Segundo o Datafolha, 34% dos brasileiros são a favor de manter a legislação como está e 22% das pessoas acreditam que o aborto deveria ser permitido em mais situações ou totalmente. O instituto mostra que há uma variação pequena de opinião entre homens e mulheres, mas as diferenças principais são com relação à escolaridade e à renda: mais ricos e com mais tempo de estudo tendem a defender menos restrições à interrupção da gravidez.

'Quem tem dinheiro faz'

Como o tema é delicado, Juliana procurou a ajuda da assistente social e das advogadas do coletivo feminista Marias Feministas para ter apoio institucional. As ativistas ajudaram, por exemplo, a escrever um termo para que as mulheres que desejam viajar deixem claro que o fazem por sua própria vontade.

"Não é só uma garantia jurídica. A gente ajuda, mas quer que a mulher seja a protagonista", diz Juliana.

O Milhas pela Vida diz ter sido procurado por mais de 60 mulheres desde que foi criado. "O que me chocou foi que em quase todos os casos eu era a única pessoa com quem aquelas mulheres falavam sobre o assunto", diz Juliana. "Isso mostra a solidão e o tamanho da violência que as mulheres sofrem com a proibição."

O Milhas pela Vida passou para Luzia as informações sobre o Profamília, organização privada de planejamento familiar sem fim lucrativos que oferece, na Colômbia, orientação sobre métodos anticoncepcionais, infecções sexualmente transmissíveis e procedimentos de interrupção da gravidez a baixo custo.

Imediatamente, ela entrou em contato com a instituição e começou a ir atrás dos documentos e exames necessários.

"O processo não é muito rápido. Eu descobri a gravidez com 33 dias e viajei com 11 semanas", conta Luzia. Em Bogotá, ficou hospedada em um hotel perto da clínica e fez o procedimento dois dias depois de chegar, após as consultas e exames iniciais.

 Mulher preocupada em frente a um computador

 

Ela conta que ficou acordada durante o procedimento, feito por um médico, uma médica assistente e acompanhado por uma enfermeira. "Foram menos de 15 minutos. Eu tomei a anestesia, senti um 'espeto' e quando o médico falou 'acabou', eu chorava, chorava... Era um sorriso, e as lágrimas caindo. A enfermeira perguntou 'o que aconteceu, você está bem?'. Eu falei 'tô ótima!'."

"Foi um alívio, um alívio", diz ela. Na sala de repouso tomou soro na veia e recebeu uma bandeja com um biscoitinho integral e uma xícara de chá. "Era um biscoitinho ruim, mas era um delícia... Nunca comi um biscoito tão bom. E eu detesto chá, mas aquele chá eu tomei até a última gota", diz.

Luzia vestiu a roupa e voltou ao hotel andando. "Eu me senti digna. Saí, ninguém me olhou torto, ninguém me julgou."

"É uma coisa que ninguém tinha que se meter na sua vida", diz ela. "É uma escolha que eu faço de como eu quero criar meus filhos. Uma escolha de poder pagar o colégio das minhas filhas, porque se tivesse um terceiro aqui estaria complicado para todo mundo, inclusive para elas. E não só pela questão financeira, eu ia estar estressada, ia estar gritando."

Apesar de estar em uma situação financeira muito complicada, ela tinha crédito. Fez um empréstimo e parcelou a passagem em dez vezes no cartão de crédito. "Foi difícil porque que eu estava muito sem dinheiro. Mas no final ficou mais barato do que seria fazer o procedimento ilegalmente no Brasil."

Mulheres de baixa renda, no entanto, provavelmente não conseguiriam fazer o mesmo.

"É nessa mulher, quer não tem acesso, que não tem dinheiro, que a gente quer chegar", diz Juliana. "Nessa mulher que sem um apoio iria acabar morrendo."

"Aborto pode ser ilegal, mas quem tem dinheiro faz. Quer seja ilegalmente aqui, quer seja viajando. Mas quem é pobre faz de maneira precária e morre", diz Juliana.

Uma em cada 5 mulheres no Brasil aos 39 anos de idade já fez ao menos um aborto, segundo a Pesquisa Nacional sobre Aborto, feita pela última vez em 2016. São cerca de 500 mil procedimentos feitos por ano no país, apesar de ser crime.

Cerca de 200 mil mulheres por ano acabam internadas no Brasil como resultado de complicações geradas por abortos inseguros, segundo dados de 2017 do SUS (Sistema Único de Saúde). O Ministério da Saúde diz que mais de 200 mulheres morrem por ano graças a abortos inseguros, e diversas pesquisas apontam que esse número pode estar subnotificado.

Sem dinheiro para tomar água

A ideia de Juliana inicialmente era usar doações de milhas aéreas para pagar as viagens das mulheres — daí o nome do grupo — mas ela descobriu que operacionalizar isso era complicado. Ela começou então a recolher doações em dinheiro por meio de financiamento coletivo.

Foram doações que pagaram a viagem da universitária Sofia*, do Rio Grande do Norte. Ela foi a primeira mulher a viajar com todos os gastos pagos pela ONG.

Vivendo com uma bolsa de estudos de R$ 400 por mês e lutando contra uma depressão, Sofia descobriu, aos 26 anos, que estava grávida.

"Fiquei desesperada, com muito medo e muito triste, minha depressão ficou ainda mais profunda", conta ela, que já tem um filho pequeno, que sua mãe ajuda a criar para que ela possa frequentar a faculdade.

"Eu só conseguia pensar 'não dá, não quero, não posso'. Eu não tinha nenhuma estrutura — nem emocional nem financeira — para ter outro filho naquele momento."

"Eu ficava boa parte do dia chorando, sem ânimo para fazer nada, e a depressão foi piorando", diz ela. "Não imaginava continuar vivendo, não imaginava a vida depois disso."

Foi seu psicólogo quem mostrou uma reportagem sobre a ONG. "Vi que era tudo legalizado, gratuito, e mandei mensagem", conta Sofia.

Quando souberam dos planos de Sofia, seus amigos e o namorado ficaram preocupados. "Eles não sabiam se era confiável, eu mesma pensei na possibilidade de ser tráfico de pessoas", diz ela. "Fiquei com muito medo, mas entre o medo e a possibilidade de dar certo, eu resolvi arriscar."

Sofia nunca tinha viajado de avião ou saído do país. Moradora de um Estado onde faz calor na maior parte do tempo, ela não tinha nem roupa de frio para levar para Bogotá, onde as temperaturas mínimas chegavam a 7ºC.

Preocupada com o avanço da gestação, ela organizou a viagem às pressas. "Nem sapato eu tinha levado. Mas tinha meia, então fiquei andando de havaiana e meia", conta.

Quando Sofia já estava em Bogotá, Juliana percebeu pelas conversas que a jovem estava esperando o café da manhã para tomar água, já que não podia pagar pelos itens do frigobar do hotel. Também não tinha dinheiro para comprar absorvente higiênico (necessário caso haja sangramento após o procedimento).

"Combinei com o hotel para que ela fizesse suas refeições por lá e nós pagamos", diz a diretora da ONG. "E consegui organizar para que ela se encontrasse com outra mulher que ajudamos a viajar para que emprestasse um absorvente para ela."

Sofia chegou em Bogotá em uma sexta-feira, quando já fez a consulta com o médico, e fez o procedimento na segunda.

manifestação contra o aborto

 


Mais de 200 mil mulheres são internadas por ano no Brasil graças a complicações geradas por abortos inseguros

Ela também ganhou gratuitamente um DIU do projeto Profamilia colombiano, que foi colocado logo após a interrupção da gravidez, aproveitando a anestesia geral que ela tinha tomado.

O apoio para o planejamento familiar e a contracepção é parte central do trabalho da entidade — o objetivo é evitar que, sem acesso a contracepção, a mulher engravide novamente e faça outro aborto. Reportagem da BBC News Brasil de junho de 2018 mostrou as falhas do sistema público de saúde brasileiro em prover métodos contraceptivos a mulheres. Em alguns Estados, o DIU, por exemplo, nem sequer é oferecido.

O número de abortos diminuiu nos países onde o procedimento é legalizado, segundo um estudo da OMS (Organização Mundial de Saúde) com o Guttmacher Institute. O índice caiu de 39% (das gestações terminando em abortos) entre 1990 e 1994 para 28% entre 2010 e 2014. Uma das explicações é justamente a orientação, que evita abortos repetidos.

"Assumir um filho inclui muitas questões, financeiras, físicas e emocionais", afirma a psicóloga Bruna Falleiros, de um coletivo que dá apoio e atua em parceria com o grupo de Juliana.

"O estresse que a mulher vivencia quando ela não quer levar uma gestação até o fim e é obrigada pode ser comparado a uma tortura, porque é algo que está sendo feito ao corpo dela", diz Falleiros.

Ativismo pela descriminalização

Juliana foi inspirada a criar o grupo pela história da brasileira Rebeca Mendes, que tentou obter autorização para fazer um aborto na Justiça, mas sem poder esperar pelo resultado, acabou indo para a Colômbia para interromper a gravidez. Ela diz que o aumento do conservadorismo no Brasil foi também uma motivação.

"Por mais que pareça o contrário, acredito mesmo que quanto mais o absurdo tenta abaixar o teto, mais capazes nos tornamos de trocar o telhado."

A diretora também é ativista pela descriminalização do aborto no Brasil.

"Somos um grupo formado por mulheres que querem mudar a legislação e que ajuda outras mulheres que não podem esperar por essa mudança", diz ela. "O momento da operação Milhas é este: desobediência civil, sem desrespeitar a lei. Está na hora de tirar o aborto do armário."

*O nome das entrevistadas foi alterado para preservar sua privacidade.

**A pesquisa foi feita 18 e 19 de dezembro de 2018, com 2.077 entrevistados em 130 cidades do país todo. O nível de confiança da pesquisa é 95% e a margem de erro é de dois pontos percentuais.

 

 

PortaldoBanzeiro/BBCBrasil/Foto:GettyImagens 

 

 

 

Pagina 1 de 2

Quem somos

Sejam bem vindos ao Portal do Banzeiro! Para entrar em contato conosco é muito simples. Envie seu email para: portaldobanzeiro@hotmail.com  Continue visitando nosso site. Por aqui, você se mantém sempre bem informado. Abraços!

 

Jornalista JP Melo 

GERAL

Envie sua mensagem

Escreva no espaço abaixo e não esqueça de colocar seu contato e email, por gentileza. Obrigada!