Voz contra a ditadura, rabino Henry Sobel morre aos 75 anos em Miami Featured

O rabino emérito Henry Isaac Sobel, de 75 anos, morreu na manhã desta sexta-feira, 22, em Miami, nos Estados Unidos. Rabino emérito da Congregação Israelita Paulista (CIP), destacou-se como uma "voz firme em defesa dos direitos humanos no Brasil", como destaca nota divulgada pela família. Ele deixa esposa e filha. 

"Tenho vivido bem com a minha consciência. E passei a agir não só pelo Vlado, mas por outros torturados. A causa transcendeu. Naquele momento ganhei adversários, sim, e uma recompensa: a dos jovens judeus que me acompanharam ao culto. Eles andavam comigo na catedral. Éramos um time, jogando juntos", disse em entrevista , em 2013. "Procurei o que era certo e Deus resolveria o resto. Isso significa ser judeu consciente. Assumir, agir, lutar se necessário. E confiar. Confiar."

"Falta buscar outros Vlados cujos direitos foram violados, Vlados humilhados em vida e depois da vida. O trabalho pelos direitos humanos está apenas começando no Brasil. Temos um longo caminho a percorrer. E, enquanto for rabino, algo que pretendo ser até o fim da minha vida, assumo o compromisso de lutar por isso. A morte de Vladimir Herzog não terá sido em vão", declarou na entrevista.

O rabino escreveu a autobiografia Um Homem. Um Rabino, lançada em 2008 pela Ediouro, com prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Também teve parte da trajetória narrada no documentário A história do homem Henry Sobel, do diretor André Bushatsky, de 2014.

Em 2007, Sobel também falou ao Jornal da Tarde sobre a mudança para o Brasil. "Estava fascinado em vir para o Brasil, não só pela Copa, mas principalmente por causa do povo. Viajei um pouco na vida e lhe digo: não existe um povo igual no mundo", disse.

O rabino era declarado fã de futebol e torcedor do São Paulo. Ao longo de décadas, se encontrou com importantes lideranças políticas e religiosas, como Dalai Lama e os papas João Paulo II e Bento XVI.

Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, chamou Sobel de heroi. “Era um momento difícil e ele bateu pé, preferiu acreditar e esteve presente, superou essas adversidades. A gente precisa lembrar que a ditadura continuou por mais 10 anos, e ele sempre esteve firme, sempre firme, sempre presente, não recuou em nenhum momento."

“Ao longo dos anos, (Sobel) sempre se manteve fiel aos seus valores, princípios. Acho que ele era uma dessas pessoas que jogava o jogo dos valores dele, não do contexto do momento.”

Em 2007, chegou a ser detido após furtar gravatas de uma loja nos Estados Unidos. Após o episódio, se afastou da função de rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), que exerceu por 37 anos. O caso teria sido determinante para a saída do Brasil, seis anos depois.

Professora emérita da USP, a socióloga Eva Blay lembra que Sobel era visto com “animosidade” e até antissemitismo por parte da sociedade, por ser “progressista”, “uma pessoa aberta, que não tinha crítica no sentido de restringir liberdades dos indivíduos, que, para ele, eram todos iguais”. 

“Tinha um trabalho que era tão grande, tão importante junto com católicos e comunidades de outras religiões pelos direitos humanos”, comenta. “É uma perda. Nós estamos vivendo um momento difícil. É uma pessoa que vai fazer falta.” 

Também professora da USP, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro diz que o legado de Sobel “extrapola as fronteiras” da Congregação Israelita Paulista, “deixando lições de dignidade, justiça e respeito aos direitos humanos”. “Como rabino, cidadão e amigo, soube usar sua sabedoria à bem da justiça e da democracia que, neste momento, carece de seus sábios conselhos. Assim será lembrado, marcando seu lugar na história como personagem singular.”

Sobel morreu em decorrência de complicações causadas por um câncer. O sepultamento será realizado no domingo, 24, no Woodbridge Memorial Gardens, em Nova Jersey. 

Nascido em Portugal em 1944, cresceu nos Estados Unidos em uma família de judeus de tradicional ortodoxia. Sobel chegou ao Brasil na década de 70, onde viveu por 43 anos até se mudar para Miami, em 2013. No País, teve forte atuação na ditadura militar, especialmente em relação ao esclarecimento da morte de Vladimir Herzog, não aceitando a versão oficial de que o jornalista teria cometido suicídio.

Sobel autorizou que Herzog fosse sepultado na parte central do Cemitério Israelita do Butantan, em vez da área próxima dos muros,  ala reservada a suicidas. 

Junto a D. Paulo Evaristo Arns e ao reverendo Jaime Wright, Sobel celebrou um ato inter-religioso em homenagem ao jornalista, de origem judia, em 23 de outubro de 1975, na Catedral da Sé. A celebração reuniu cerca de oito mil pessoas e foi considerada uma manifestação importante contra a ditadura militar. 

Sobel (à esquerda da foto) celebrou um ofício inter-religioso em homenagem a Vladimir Herzog durante a ditadura militarSobel (à esquerda da foto) celebrou um ofício inter-religioso em homenagem a Vladimir Herzog durante a ditadura militar Foto: Arquivo/Estadão

"Tenho vivido bem com a minha consciência. E passei a agir não só pelo Vlado, mas por outros torturados. A causa transcendeu. Naquele momento ganhei adversários, sim, e uma recompensa: a dos jovens judeus que me acompanharam ao culto. Eles andavam comigo na catedral. Éramos um time, jogando juntos", disse em entrevista ao Estado, em 2013. "Procurei o que era certo e Deus resolveria o resto. Isso significa ser judeu consciente. Assumir, agir, lutar se necessário. E confiar. Confiar."

"Falta buscar outros Vlados cujos direitos foram violados, Vlados humilhados em vida e depois da vida. O trabalho pelos direitos humanos está apenas começando no Brasil. Temos um longo caminho a percorrer. E, enquanto for rabino, algo que pretendo ser até o fim da minha vida, assumo o compromisso de lutar por isso. A morte de Vladimir Herzog não terá sido em vão", declarou na entrevista.

O rabino escreveu a autobiografia Um Homem. Um Rabino, lançada em 2008 pela Ediouro, com prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Também teve parte da trajetória narrada no documentário A história do homem Henry Sobel, do diretor André Bushatsky, de 2014.

Em 2007, Sobel também falou ao Jornal da Tarde sobre a mudança para o Brasil. "Estava fascinado em vir para o Brasil, não só pela Copa, mas principalmente por causa do povo. Viajei um pouco na vida e lhe digo: não existe um povo igual no mundo", disse.

O rabino era declarado fã de futebol e torcedor do São Paulo. Ao longo de décadas, se encontrou com importantes lideranças políticas e religiosas, como Dalai Lama e os papas João Paulo II e Bento XVI.

“Ao longo dos anos, (Sobel) sempre se manteve fiel aos seus valores, princípios. Acho que ele era uma dessas pessoas que jogava o jogo dos valores dele, não do contexto do momento.”

Em 2007, chegou a ser detido após furtar gravatas de uma loja nos Estados Unidos. Após o episódio, se afastou da função de rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), que exerceu por 37 anos. O caso teria sido determinante para a saída do Brasil, seis anos depois.

Professora emérita da USP, a socióloga Eva Blay lembra que Sobel era visto com “animosidade” e até antissemitismo por parte da sociedade, por ser “progressista”, “uma pessoa aberta, que não tinha crítica no sentido de restringir liberdades dos indivíduos, que, para ele, eram todos iguais”. 

“Tinha um trabalho que era tão grande, tão importante junto com católicos e comunidades de outras religiões pelos direitos humanos”, comenta. “É uma perda. Nós estamos vivendo um momento difícil. É uma pessoa que vai fazer falta.”

Também professora da USP, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro diz que o legado de Sobel “extrapola as fronteiras” da Congregação Israelita Paulista, “deixando lições de dignidade, justiça e respeito aos direitos humanos”. “Como rabino, cidadão e amigo, soube usar sua sabedoria à bem da justiça e da democracia que, neste momento, carece de seus sábios conselhos. Assim será lembrado, marcando seu lugar na história como personagem singular.”

 

Portal do Banzeiro/Estadão

 

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